20 abril 2010

Divagação nocturna


Silêncio... é tudo o que oiço.
Minto. Não é só silêncio! Há sirenes também... lá ao fundo, constantes – tanto, que quase já passam despercebidas.

Comigo vão as sombras por estes caminhos que à noite se tornam sombrios... as sombras e os sons que acho estranhos a cada passo.
Ao fim de alguns passos, penso que não devia ficar tão atenta – não há razões para isso! E nisto, surge uma sombra sinistra que não é minha! É melhor manter-me alerta, afinal, reformulo... Como se nada fosse, e como se não me tivesse sequer assustado, é a minha posição ao passar por ele. Olha-me nos olhos num milésimo de segundo, e nesse bocadinho fico na dúvida se a frieza que transparece (ou que eu percepciono) é uma protecção como a minha, ou se devo ficar mais alerta, para algum passo em falso! A adrenalina que sinto percorrer pelo corpo não me deixa não ficar alerta. Passou!

Volto a ouvir apenas e só o ritmo da minha passada.
Pensei como seria bom se estivesses aqui comigo. Não. Não pensei mesmo a sério. Ocorreu-me, por momentos – curtos – que seria agradável. E era. Mas não era só por seguir só por aqui. Não devia ser este o caminho.

Um gato. Vai assustar-se, e não quero!
Afinal não se assustou: eu é que fico surpreendida ao ver que se levanta e vem na minha direcção. Incrível! Quer vir comigo. Não posso levá-lo. Parte-me o coração ter de seguir, quase como se o ignorasse. Ele fica para trás. Como se sentisse a minha dor, por não o poder trazer. Por ser mais uma só a passar. Amanhã trago-lhe comida, penso.

Volto. O vento vem comigo.
Sussurra-me pequenos sibilados ao ouvido – confundem-me a atenção. Olho para trás: mas só para confirmar. “Mais vale prevenir que remediar”.

De repente, um cão!
Assusta-se e tem um ar assustado. Atrás vem o dono, que parece alcoolizado, a chamá-lo, com outro cão idêntico ao colo – para que volte para o
papá. Ele finge que não ouve e no seu passo, alternando entre a corrida e o de caracol, nervoso, junta-se ao meu e acompanha-me. Quer vir comigo. Mais uma vez, sinto aquele aperto. Tem alguém que tome conta dele, mas será mesmo que sim? Porque quer vir comigo? Oiço um último grito “para casa!”. E ele obedece. Não posso pensar mais no assunto – não podia fazer nada.

Outro estranho.
Ambos vimos uma manobra proibida, grave e perigosa de um condutor. Sinto uma breve cumplicidade e apetece-me sorrir-lhe, depois de ele “mandar vir” com o condutor, sarcasticamente, o que não achei que fosse apropriado eu fazer. Não agora. Foi só vontade de sorrir, pelo hábito. Não sorri – também não sei se é perigoso, não o conheço. Estou sozinha. A cidade parece deserta. Para quê correr riscos desnecessários por uma cumplicidade estúpida e tão mínima?

Cheguei – sã e salva.
Como sempre.
Até hoje (pelo menos).

6 comentários:

Piri-Piri disse...

É o que dá morar longe da baixa ;) o percurso torna-se sempre uma aventura!

SaL disse...

=)

Para a próxima será uma divagação diurna! Caminho menos tétrico, mas igualmente emocionante! :P

Nuno Patricio disse...

Falta a capa e espada. Uma máscara catita e o Salmobil. Temos heroina nocturna.

SaL disse...

LOL! Vou tratar desses pequenos pormenores!
Depois podem todos dormir descansados!

Obrigada pelo comentário, Nuno! =)
Beijinhos*

Rita P. disse...

Se ajudar, estou agora a ter umas mini-aulas de esgrima (e a adorar, nunca eu imaginei tal coisa!)... Não é muito prático andar de espada na rua (nem sei se legal), mas com uma capa à mistura e ninguém se metia contigo! Viravas uma super-heroína a salvar os animais em perigo nas obscuras ruas de Faro...
Tinhas de pensar no resto da fatiota e numa música que surgiria (por magia) quando estivesses a combater o Mal: "Super" Super! Supeeeeeeeeeeer Saaaaaaaaaaaaal! A salvar os animais do Maaaaaaaaaaal"
(Ok, imaginação em delírio...sorry, mas ando a dormir muito pouco...)

SaL disse...

Adoreeeeei Ritinha! Adoro a tua imaginação em delírio!

Por acaso também gostava de aprender qualquer coisa, mesmo que muito básica, de esgrima. Sempre achei o máximo... e não me perguntes porquê, porque eu também não sei! A explicação estará numa qualquer gaveta do meu sótão cerebral, daquelas que nunca são abertas, por ter qualquer coisa a "atravancar" o caminho! LOL!

Uma espada de zorro de carnaval deve dar para aprender movimentos! LOL! E não teria problemas legais... tenho uma dessas e é espectacular! Até faz "txi-txiiiiin" em dois tipos de som diferentes quando carrego num botão fantástico e super discreto!!! Hahaha!